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Ritinha lembra direitinho daquela sala de aula. Era à noite, depois de um dia inteiro de trabalho. Ela chegava cansada, mas decidida a terminar os estudos. Enquanto o professor explicava algum conteúdo, alguns colegas aproveitavam para contar, em voz alta, “as coisas absurdas” que faziam com meninas nos fins de semana. Riso fácil, detalhes desnecessários, uma naturalidade que cortava o ar. Ritinha era a única evangélica da turma. Virou alvo de piada. Zombavam da sua fé, da forma como se vestia, do fato de não participar das mesmas festas.
No começo, ela tentava fingir que não ouvia. Depois, o corpo começou a sentir: dor de cabeça, enjoo, vontade de chorar no caminho de casa. Um dia, sem aguentar mais, criou coragem e foi até o diretor: “Seu fulano, eu queria mudar de sala. Não estou bem ali dentro”. O pedido era simples, humano, razoável. A resposta foi dura, burocrática, fria: “Não posso fazer isso”. Naquele dia, Ritinha entendeu que a escola que deveria protegê-la tinha escolhido olhar para o lado. Pouco tempo depois, ela desistiu e foi trabalhar em casa de família. Hoje, aos 43 anos, ela diz: “Fiquei muito triste com o diretor… mais, se Deus quiser, vou voltar pra terminar”.
A história de Ritinha não é exceção. É espelho. Em muitas salas de aula do Mato Grande, adultos que decidiram recomeçar nos estudos carregam medos difíceis de confessar. Não é só a canseira depois do trabalho, a falta de transporte ou a necessidade de cuidar dos filhos. É também a sensação de não pertencer mais àquele espaço. Tem gente que teme a própria letra, por achar que é “feia demais” para um caderno de escola. Gente que tem pavor de ler em voz alta e errar na frente dos outros. Gente que tem vergonha de sentar numa carteira apertada, ouvindo cochichos nas primeiras fileiras. Gente que evita matrícula para não correr o risco de encontrar antigos colegas que seguiram estudando, enquanto ela ficou para trás.
Há mulheres que carregam marcas de bullying de outros tempos: apelidos cruéis, professores que ridicularizaram, colegas que riram de um erro de leitura como se fosse piada. Há homens que abandonaram a escola para trabalhar na roça, na obra, no comércio, e hoje, ao pensar em voltar, sentem-se “burros”, “atrasados”, “fora de lugar”. Há quem tema ser julgado na própria igreja: “Vão dizer que agora, velho, eu quero estudar?”. Há quem tema o contrário: ser julgado na escola por causa da fé, como aconteceu com Ritinha. Esses medos se misturam e, muitas vezes, se tornam mais fortes do que o desejo de aprender.
É preciso dizer com todas as letras: a vergonha não está em quem quer voltar a estudar. Vergonha é uma escola que tolera humilhação dentro da sala. Vergonha é um diretor que se omite diante de um pedido de ajuda. Vergonha é uma comunidade que finge não ver quando alguém é ridicularizado por ser mais velho, por ser evangélico, por ter a pele negra, por estar acima do peso, por não saber ler uma frase inteira. Quando a escola vira lugar de riso fácil em cima da dor do outro, ela trai a sua vocação. A sala de aula deveria ser espaço de proteção, não de exposição; de respeito, não de chacota; de acolhimento, não de prova de resistência.
Há perguntas que precisamos fazer com honestidade: que tipo de escola permite que um grupo transforme a aula em palco de violência simbólica? Que tipo de gestão trata um pedido de mudança de sala como “complicação” e não como cuidado? Quantas “Ritinhas” já passaram pelos corredores das nossas escolas, saíram caladas e nunca mais voltaram? Quando a EJA é organizada de qualquer jeito, com turmas improvisadas, horários mal pensados e pouco diálogo com a realidade dos estudantes, ela corre o risco de repetir os mesmos erros da escola regular que já afastou tanta gente.
Se quisermos que a EJA seja, de fato, um caminho de recomeço, precisamos levar a sério os medos de quem pensa em voltar. Isso passa por decisões concretas. Turmas específicas de Educação de Jovens e Adultos, com horários pensados para quem trabalha, ajudam. Acordos de respeito em sala de aula, construídos com os próprios estudantes, ajudam. Professores que escutam, que intervêm quando alguém é desrespeitado, que não tratam bullying como “brincadeira”, ajudam. Quando possível, apoio psicológico, rodas de conversa, momentos de partilha sobre as feridas que a escola já causou, ajudam. Nenhuma dessas ações resolve tudo, mas todas elas comunicam algo fundamental: “Aqui ninguém será humilhado por querer aprender”.
As comunidades de fé também têm um papel precioso. Pastores, padres, lideranças de igrejas e grupos religiosos podem ser ponte entre o medo e a coragem. Em vez de olhar a escola com desconfiança ou distanciamento, podem abraçá-la como aliada. Podem dizer, do púlpito ou do microfone: “Voltar a estudar é honra, não vergonha. Deus se alegra com cada recomeço”. Podem organizar mutirões para matrícula, ajudar com transporte solidário, acompanhar quem está desanimando. Podem oferecer oração, sim, mas também companhia nos primeiros dias de aula, incentivo concreto, escuta atenta.
Se você, que lê este texto, já abandonou a escola por vergonha, violência, humilhação ou falta de acolhimento, eu queria falar diretamente com você. Você não é o problema. O problema foi o ambiente que não te acolheu como deveria. Você não é “burro”, não é “atrasado”, não é “sem jeito”. Você é alguém que, em algum momento da vida, foi ferido justamente num lugar que deveria cuidar de você. E isso dói. Mas essa dor não precisa ser a última palavra. A vontade que ainda existe no seu coração — esse “se Deus quiser, eu volto” — é sinal de que o sonho não morreu.
Talvez você tenha medo de entrar de novo por um portão de escola. Talvez carregue lembranças de risadas, de portas fechadas, de pedidos ignorados. Talvez se pergunte se vai aguentar conciliar tudo: casa, trabalho, filhos, saúde. Eu não vou dizer que é fácil. Não é. Mas também não é impossível. E, mais importante: você não precisa fazer isso sozinho. Converse com alguém de confiança, procure a escola mais próxima, pergunte sobre turmas de EJA, leve com você essa certeza: a vergonha não está em tentar outra vez. A vergonha está em uma sociedade que não valoriza quem decide recomeçar.
O Mato Grande precisa das histórias, das vozes e da experiência de cada adulto e idoso que decide voltar para a sala de aula. Porque, no fim das contas, cada retorno à EJA é mais do que uma matrícula: é um ato silencioso de coragem contra tudo o que já deu errado. Quando uma Ritinha qualquer atravessa o portão e se senta de novo diante de um caderno, ela está dizendo ao mundo, e a si mesma, que a sua história não acaba na humilhação — ela continua na dignidade.
Sobre o autor
Gilberto Cipriano do Nascimento é professor, pesquisador e escritor. Licenciado em História, atua na educação básica e desenvolve reflexões sobre educação, EJA, cultura, fé e sociedade, com foco na realidade do Rio Grande do Norte.

Estudante de Serviço Social, Reporter Fotográfico, Radialista e Jornalista com DRT-RN 711. Fui funcionário das Rádio Baixa Verde-AM, 101 FM, 89 FM e Líder Gospel, tendo iniciado no rádio em 1992. Entrei no mundo virtual e idealizei o Blog do Moisés Araújo, hoje uma das referências de informação entre os internautas da Região do Mato Grande e do estado do Rio Grande do Norte.

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