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Na sala da EJA no Mato Grande, cada caderno aberto é também um pedaço de história reescrito. Não se trata de adolescentes em início de caminhada, mas de gente que já viu muita coisa: casas de taipa, ruas de barro, carroça puxada a burro, feira cheia e roça pesada. Quando voltam para a escola, trazem nas costas décadas de trabalho, cuidado com a família, lutas silenciosas e, muitas vezes, frustrações com a própria escola. Ainda assim, escolhem recomeçar.
Maria tem 62 anos. Sempre frequentou a igreja, mas, por muitos anos, ouvindo a leitura da Bíblia pelos outros, fingia acompanhar com o dedo sobre as linhas. Decorava alguns versículos, repetia de ouvido, mas dependia da boa vontade de quem lia em voz alta. Um dia, em uma das nossas conversas, ela resumiu seu desejo: “Quero ler a Palavra de Deus com os meus próprios olhos”. Foi assim que decidiu voltar para a sala de aula. Nas primeiras semanas, a letra saía trêmula, as sílabas não se encontravam, o medo de errar em voz alta apertava o peito. Mas, pouco a pouco, as palavras começaram a se revelar.
Hoje, Maria lê sozinha os textos da igreja, acompanha os avisos no quadro de anúncios, assina o próprio nome nos documentos, participa das oficinas de História que investigam a memória do município onde vive. Ela mesma escreveu, certa vez, que “as casas eram de taipa, as ruas de barro, as pessoas mais unidas e as crianças brincavam na chuva”. Não é só alfabetização: é reconhecimento de que a sua vida também faz parte da história da cidade. A fé ganhou novos contornos quando ela passou a ler, compreender e compartilhar. O diploma ainda não chegou, mas a autoestima já foi profundamente transformada.
João, 45 anos, passou a vida carregando mercadoria de um lugar a outro. Começou como caminhoneiro que “ganhava a vida carregando cama de alugar de uma cidade para outra no Mato Grande”, como registrou em uma atividade. Depois virou lotista, seguindo viagem entre João Câmara, Jandaíra, Poço Branco, Parazinho e Caiçara do Norte. Sempre trabalhou muito e ganhou pouco. Na sua avaliação sobre a vida “antigamente e hoje”, escreveu que antes havia menos violência, mais união, comida mais barata; agora, trabalha-se mais, ganha-se um pouco mais, mas “o dinheiro não dá para nada”, porque tudo encareceu e pequenos comerciantes perdem espaço para grandes redes.
Até pouco tempo, João assinava usando sua impressão digital (assinava com o dedo) e dependia de outras pessoas para conferir contas, ler contratos, entender as letras miúdas. Voltou para a EJA porque não queria mais depender dos outros. Escreveu que seu maior desafio é “regular o trabalho com a escola”, chegar no horário depois do expediente. Em outra atividade, disse que o que o ajuda a não desistir é “a vontade de ter uma vida melhor” e “não ser enganado”. Hoje, ele já assina com a própria mão, lê boletos, questiona cláusulas, acompanha notícias. Sonha com um curso técnico que dialogue com o trabalho que sempre fez. A mudança não foi mágica, mas concreta: ele se olha com mais respeito e se coloca de outro jeito diante do mundo.
Ceição, 38 anos, é mãe solo. Trabalha fora, cuida de casa, cria filhos. Durante muito tempo, olhou para os cadernos das crianças com um aperto: queria ajudar nas tarefas, mas se sentia travada. Em uma das atividades, escreveu que o maior desafio da EJA é “a pessoa que é trabalhadora” e que a maioria dos estudantes “vem muito cansada”. Disse também que o que a ajuda a não desistir é “terminar os estudos para mostrar aos meus pais que conseguiu” e, hoje, acrescentaria: para mostrar aos filhos. Foi essa combinação de amor e desejo de prova para si mesma que a levou a voltar.
No dia a dia, Ceição enfrenta o que tantas outras mulheres da EJA relataram nas avaliações: conciliar trabalho, família e estudo; chegar à escola “cansada, com sono, depois de uma jornada pesada”; lidar com transporte que falha, com tempo curto para ver os filhos. Mas algo mudou na dinâmica da casa. Ela agora senta à mesa com as crianças, lê os enunciados, ajuda a resolver exercícios, acompanha o diário, conversa com professores. Não apenas cobra o estudo; ela mesma estuda. Na escola, pede aulas “mais dinâmicas” e que “ajudem de verdade a arrumar um emprego melhor”, como escreveu outra colega. A EJA, para ela, é tanto uma ponte para o mercado quanto uma forma de ser exemplo vivo de superação dentro de casa.
Essas histórias se multiplicam nos cadernos e nas falas de tantos outros estudantes. Francisco, caminhoneiro, falou da diferença entre “trabalhar muito e ganhar pouco” no passado e “trabalhar muito e ver o dinheiro não dar para nada” hoje, e defendeu que as leis trabalhistas precisam sair do papel. Joana escreveu que o maior desafio é “conciliar trabalho, família e estudos”, e que o que a segura na escola é o “apoio da família, dos professores dedicados e o sonho”. Irani apontou o cansaço físico, o tempo longe da família, o preconceito e a dificuldade de retomar o ritmo de aprendizagem depois de anos fora da escola, mas, ainda assim, insiste porque deseja “melhores oportunidades no mercado de trabalho e o sonho de cursar uma faculdade”.
Em quase todas as avaliações, uma palavra aparece como barreira: cansaço. Outra, como ameaça constante: preconceito. E, ainda assim, outra aparece como força: vontade. “Persistência”, escreveu uma aluna. “Força de vontade e fé”, registrou outra. “Meu maior desafio é não faltar”, disse um estudante. Quase todos pedem melhorias na escola: transporte que não falte, infraestrutura mais acolhedora, “mais professores”, aulas que conversem com a realidade adulta, com o trabalho, com a cidade. Eles não querem um favor; querem condições dignas para estudar.
Nada disso é simples. A jornada de quem volta para a EJA passa por noites mal dormidas, ônibus que atrasam, contas para pagar, dores no corpo, medo de não dar conta, vergonha de errar, lembranças ruins da escola de antes. Há quem chegue à sala direto do trabalho, sem jantar. Há quem deixe filhos com vizinhos, quem atravesse distâncias longas, quem lute contra doenças. Mesmo assim, quando perguntados “o que ajuda a não desistir”, respondem com sonhos concretos: “realizar um sonho pessoal”, “dar orgulho para os meus filhos”, “não depender dos outros”, “ter uma vida melhor”.
Olhando de fora, alguém poderia dizer que essas histórias são sobre notas, provas, certificados. Olhando de perto, percebemos outra coisa: o que todos esses estudantes têm em comum não é o diploma, é a coragem. Coragem de enfrentar medos antigos, de encarar o cansaço, de desafiar a própria ideia de “já passou da minha idade”, de voltar ao lugar de onde um dia foram empurrados. Coragem de reabrir cadernos, de escrever com letra tremida, de ler devagar, de fazer perguntas, de reconhecer que aprender é direito em qualquer fase da vida.
Se você está na dúvida se volta ou não para a escola, se carrega vergonha, medo ou lembranças difíceis, olhe para Maria, para José, para Ana, para tantos outros que têm recomeçado nas salas de EJA do Mato Grande. Eles não são super-heróis; são gente comum, cansada, às vezes doente, muitas vezes preocupada com o fim do mês. A diferença é que, em algum momento, disseram a si mesmos: “Eu também posso”. E deram o primeiro passo.
Talvez essa coluna seja, para você, um convite a fazer o mesmo. As dificuldades vão continuar existindo, mas você não precisa enfrentá-las sozinho. Procure uma escola, informe-se sobre as turmas de EJA, converse com alguém de confiança na família, na comunidade, na igreja. O caminho pode ser longo, mas cada noite de estudo é uma resposta à vida que tentou te convencer de que não valia mais a pena. No fim, mais do que um certificado na parede, o que fica é a certeza de que sua história não acabou onde te fizeram parar: ela pode ser reescrita, com dignidade, coragem e esperança.
Sobre o autor
Gilberto Cipriano do Nascimento é professor, pesquisador e escritor. Licenciado em História, atua na educação básica e desenvolve reflexões sobre educação, EJA, cultura, fé e sociedade, com foco na realidade do Rio Grande do Norte.

Estudante de Serviço Social, Reporter Fotográfico, Radialista e Jornalista com DRT-RN 711. Fui funcionário das Rádio Baixa Verde-AM, 101 FM, 89 FM e Líder Gospel, tendo iniciado no rádio em 1992. Entrei no mundo virtual e idealizei o Blog do Moisés Araújo, hoje uma das referências de informação entre os internautas da Região do Mato Grande e do estado do Rio Grande do Norte.

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