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São quase sete da noite quando a porta da sala se abre devagar. Algumas carteiras já estão ocupadas, cadernos abertos, olhares tímidos. Entra uma mulher de passos firmes e coração acelerado. Há anos ela não sentava diante de um quadro. Hoje, aos 43, decidiu voltar. Nas mãos, um caderno novo. Nos ombros, um mundo de lembranças: humilhações, risos de deboche, cansaço, trabalho pesado, portas fechadas. Mesmo assim, ela entra. Respira fundo e senta. A caneta treme um pouco, mas o desejo de recomeçar é maior que o medo.
Poderia ser a história de qualquer aluno ou aluna da EJA no Mato Grande. Mas há histórias que ganham nome e rosto. Como a de Tininha, que um dia me escreveu contando que estudava à noite, ouvindo dentro da sala colegas relatando, em detalhes, “as coisas absurdas” que faziam com meninas nos fins de semana. Ela era a única evangélica da turma. Virou alvo de zombaria. Voltava para casa doente, machucada por dentro. Pediu ao diretor para mudar de sala, mas ouviu um “não” frio, burocrático, indiferente. A escola que deveria proteger, silenciou. Resultado: ela desistiu e foi trabalhar em casa de família. Hoje, aos 43 anos, sem ter concluído os estudos, ela diz: “Mais, se Deus quiser, vou voltar pra terminar.”
Essa frase — “vou voltar pra terminar” — carrega a força de uma geração inteira. São jovens, adultos e idosos do Mato Grande que, por trabalho, vergonha, falta de acolhimento ou pura sobrevivência, tiveram que deixar a escola para trás. Gente que acorda cedo, pega ônibus lotado, enfrenta sol, chuva, serviço pesado, cuida de filhos, de pais doentes, de casa. Gente que, apesar de tudo isso, ainda guarda, no fundo do coração, o desejo de ler melhor, escrever sem medo, entender uma conta, assinar o próprio nome com firmeza, acompanhar o caderno dos filhos, abrir uma Bíblia e compreender com os próprios olhos.
Ao ouvir as 18 respostas da pesquisa “Juventude do Mato Grande: Ficar ou Ir Embora?”, percebemos que a maioria acredita que estudar pode mudar o futuro. Muitos já interromperam a escola por causa do trabalho. Outros pensam em sair da cidade em busca de emprego, saúde, oportunidades. Por trás de cada resposta, há histórias como a de Tininha: escolhas feitas sob pressão, não por falta de vontade de aprender, mas por falta de condições, acolhimento e respeito. Não é desinteresse. É ferida. É cansaço. É sobrevivência.
Por isso, a primeira coisa que precisamos dizer, com todas as letras, é: a culpa não é de quem parou. Durante muito tempo, o discurso foi o oposto: “não quis nada com a escola”, “jogou fora a oportunidade”, “largou os estudos porque não tem juízo”. Mas a vida real desmente essas frases.
Quantas pessoas deixaram de estudar porque precisaram trabalhar cedo? Quantas foram expulsas pelo bullying, pela violência simbólica, pelo racismo, pelo preconceito contra a fé, pela gravidez na adolescência, pela falta de compreensão com a saúde mental? Quantas ouviram “não tem como mudar de sala” e entenderam, na prática, que a escola não era lugar para elas? Quando um aluno adulto volta para a sala de aula, ele não está apenas recuperando um conteúdo perdido. Ele está lutando contra anos de mensagens que disseram: “seu tempo passou”, “você não dá mais conta”, “agora é tarde”. E aqui está um ponto que eu gostaria que ficasse gravado no coração de quem lê esta coluna: não existe idade certa para aprender. Existe é uma sociedade que insiste em dizer que a escola é lugar só de criança e adolescente.
Mas a educação de jovens, adultos e idosos existe justamente para reparar uma injustiça: o direito à educação que foi negado na infância.
Nunca é tarde demais para voltar. Nunca é tarde demais para abrir um caderno e escrever o próprio nome com mais firmeza. Nunca é tarde demais para entender o boletim do filho, para saber ler uma receita médica, para participar de uma reunião na escola sem medo de ser humilhado. Nunca é tarde demais para olhar para trás, ver a história de dor e luta, e decidir: “Eu também mereço aprender. Eu também posso recomeçar.”
Isso não significa que seja fácil. A EJA é feita de gente que enfrenta jornada dupla ou tripla. Que sai do trabalho direto para a aula. Que chega com fome, com sono, com dores no corpo, preocupada com a conta de luz, com o remédio, com o aluguel. Aí entra uma segunda verdade que precisamos encarar: não basta dizer para o adulto “volte a estudar” se a escola não estiver preparada para recebê-lo. Turmas de EJA não são turma “sobrando” no fim do corredor. Não podem ser lugar de improviso, nem depósito de quem o sistema não soube acolher na idade “certa”.
Precisam ser espaço de respeito, segurança, escuta, valorização da experiência de vida de cada estudante.
Isso envolve decisões do poder público: garantir que a EJA exista no município, com professores preparados, material adequado, merenda, transporte, horários que façam sentido, especialmente para quem trabalha. Mas envolve também decisões da própria escola: combater o preconceito, não tolerar zombarias, criar ambientes de cuidado e não de vergonha. E envolve, ainda, decisões da comunidade de fé: apoiar quem quer voltar a estudar, flexibilizar horários de ensaios e reuniões quando for necessário, emprestar o ombro e, se possível, até a carona para quem precisa ir à escola à noite.
Ao mesmo tempo, há algo que ninguém pode fazer no lugar do próprio estudante: dar o primeiro passo. A decisão de voltar é profundamente pessoal. Ela nasce no coração, às vezes depois de uma conversa, de um sermão, de um texto lido na internet, de um filho que pergunta: “Mãe, por que você não terminou a escola?”. É um passo de coragem, não de vergonha. E, quando alguém dá esse passo, toda a sociedade deveria se levantar para aplaudir, não para criticar.
Se você que está lendo este texto parou de estudar em algum momento da vida — seja na 3ª série, na 5ª, no 8º ano, no ensino médio —, por qualquer motivo que seja, eu queria falar diretamente com você: o tempo não passou para o seu sonho. Talvez tenham te feito acreditar que você não consegue, que a sua cabeça não “pega mais as coisas”, que você não tem mais idade para estar numa carteira. Talvez a vergonha te visite só de imaginar entrar num portão de escola. Mas o fato de você ainda pensar nisso, de você ainda dizer “um dia eu volto” ou “se Deus quiser eu termino”, já é sinal de que esse sonho está vivo.
Talvez não seja simples organizar tudo: filhos, trabalho, casa, saúde. Talvez você tenha medo de ser a pessoa mais velha da sala. Talvez lembre, com dor, das risadas que já ouviu. Eu não vou mentir: não é fácil. Mas também não é impossível. E, mais do que isso: você não precisa fazer isso sozinho. Procure a escola mais próxima, pergunte se há turma de EJA, informe-se sobre matrícula, horários, transporte. Converse com alguém de confiança na sua igreja, na sua família, na comunidade. Peça ajuda. Permita que outras pessoas caminhem com você.
Como sociedade, como educadores, como igrejas, como gestores públicos, nós temos um dever diante de histórias como a de Tininha: não aceitar que sejam apenas relatos tristes de algo que passou. Precisamos transformá-las em ponto de partida. Diretor que negou mudança de sala, escola que se calou diante de humilhações, sistema que empurrou alunos para fora: tudo isso precisa ser revisto. Não para alimentar rancor, mas para construir uma nova cultura: a cultura de que a EJA é lugar de honra, não de sobra; de que quem volta a estudar não é “atrasado”, é corajoso.
Na fé cristã, há uma palavra que atravessa a Bíblia de ponta a ponta: recomeço. Deus não desiste das pessoas por causa do passado delas. Ao contrário, Ele se alegra quando alguém decide reescrever a própria história. Cada adulto, cada idoso que volta à escola está, de alguma forma, vivendo um pouco dessa experiência: dizendo “eu não sou só aquilo que me aconteceu; eu posso ser mais”. E nós, como comunidade, somos chamados a ser parte desse milagre cotidiano.
Nunca é tarde demais para voltar à sala de aula. Tarde é continuar acreditando que o seu tempo já passou. Se a vida te empurrou para fora da escola, não deixe que a vergonha te impeça de entrar de novo. O Mato Grande precisa das suas histórias, da sua voz, da sua experiência, da sua presença na EJA. Porque cada caderno reaberto, cada letra escrita com esforço, cada noite vencida de sono e cansaço é um grito silencioso dizendo: a minha história ainda não terminou — e eu escolho reescrevê-la com dignidade.
Sobre o autor
Gilberto Cipriano do Nascimento é professor, pesquisador e escritor. Licenciado em História, atua na educação básica e desenvolve reflexões sobre educação, EJA, cultura, fé e sociedade, com foco na realidade do Rio Grande do Norte.
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Estudante de Serviço Social, Reporter Fotográfico, Radialista e Jornalista com DRT-RN 711. Fui funcionário das Rádio Baixa Verde-AM, 101 FM, 89 FM e Líder Gospel, tendo iniciado no rádio em 1992. Entrei no mundo virtual e idealizei o Blog do Moisés Araújo, hoje uma das referências de informação entre os internautas da Região do Mato Grande e do estado do Rio Grande do Norte.

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