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São 19h15min quando a sala da EJA começa a encher. Não era apenas mais um dia de aula: o professor tinha proposto que cada um escrevesse, em poucas linhas, como imaginava o futuro do Mato Grande. Entre cadernos surrados e canetas emprestadas, foram surgindo sonhos: “ter um hospital melhor”, “não precisar ir embora para trabalhar”, “ver meus filhos se formando aqui mesmo”.
Essas histórias não estão sozinhas. Elas se encontram com o que ouvimos na pesquisa realizada com 18 jovens e adultos do Mato Grande sobre ficar ou ir embora. Nas respostas, aparece a mesma encruzilhada: a necessidade de trabalhar cedo, a dificuldade de conciliar estudo e renda, a ida para outras cidades em busca de emprego ou tratamento de saúde, o cansaço de quem luta para não abandonar a escola. Ao mesmo tempo, a maioria afirmou que, se pudesse escolher, preferiria permanecer na própria cidade.
Em meio a trajetórias tão diferentes, um fio comum se destacou: a educação. Quase todos disseram acreditar que estudar pode mudar o futuro, e muitos reconhecem que a escola influenciou sua decisão de ficar ou sair. Para uns, ela foi abrigo e impulso; para outros, ficou marcada pela falta de estrutura, de apoio ou de condições básicas para permanecer. Mas, em todos os relatos, a escola aparece como porta que pode se abrir — ou se fechar — para o futuro da juventude do Mato Grande.
Ao longo dessas colunas, ouvimos jovens, mães, trabalhadores, estudantes da EJA. Falaram de ônibus atolando, de trabalho pesado, de doença, de falta de emprego e de saudade de casa. Quase todos disseram que a educação faz diferença, mas que sozinha não dá conta. A escola é lembrada como espaço de abrigo, encontro, sonho e recomeço — mas também como lugar que, quando falta estrutura, não consegue segurar quem já está cansado, endividado ou doente. Sem trabalho, sem saúde, sem transporte digno, o estudo vira esforço isolado e o sonho fica sempre pela metade.
Por isso, a responsabilidade não cabe apenas ao estudante “esforçado” ou ao professor “vocacionado”. As colunas foram deixando claro que o futuro da juventude do Mato Grande passa por decisões de Estado e por escolhas da comunidade: orçamento, prioridades, conselhos, participação, fé que se traduz em compromisso público. Essa síntese abre a próxima pergunta que precisamos enfrentar juntos: sabendo de tudo isso, que futuro queremos para o território — e que passos concretos estamos dispostos a dar para chegar até lá?
O futuro que queremos para o Mato Grande não é um futuro perfeito, sem problemas. Problema sempre vai existir. O que não pode continuar existindo é um território em que um jovem precise abandonar a escola para conseguir comer, ou pegar três transportes precários para ter direito a um diploma. O futuro que queremos é aquele em que estudar à noite depois do trabalho seja uma escolha de crescimento, não um sacrifício solitário para sobreviver.
Esse futuro não nasce só da minha opinião como autor. Ele nasce dos sonhos que já apareceram nas vozes que ouvimos: nas respostas dos 18 jovens e adultos que falaram de trabalho, estudo, saúde, família; nas histórias de quem foi e voltou; na coragem silenciosa de quem insiste em permanecer. Quando dizem que gostariam de ficar na própria cidade, que querem “se formar” e “mostrar para a sociedade que através da educação você consegue realizar seus sonhos”, estão, na prática, desenhando um projeto de futuro para o Mato Grande.
Nesse desenho, a educação precisa ser o motor. Da alfabetização de jovens e adultos ao ensino médio, do curso técnico à universidade, o que está em jogo não é apenas o acesso à escola, mas a possibilidade de construir uma vida com dignidade aqui. Um território que leva a sério a EJA, garante transporte para quem estuda longe, apoia a juventude que quer fazer um curso técnico ou entrar no IFRN, está dizendo, com atitudes concretas, que não aceita mais perder seus jovens para a falta de oportunidade.
Mas ninguém constrói esse futuro sozinho. Ele depende de um pacto social mínimo entre Estado, famílias, juventude, igrejas, escolas e organizações locais. Governo assumindo seu papel de garantir direitos, e não favores. Comunidade acompanhando orçamento, conselho escolar, qualidade da merenda e do transporte. Igrejas e movimentos sociais ajudando a manter viva a esperança e a responsabilidade. Jovens reivindicando espaço de participação, seja no grêmio, no conselho, na associação, na pastoral.
O futuro que queremos começa quando respondemos, com honestidade, a algumas perguntas simples: que tipo de Mato Grande queremos ver em 10 ou 15 anos? Que lugar a juventude ocupa nesse projeto? Que papel a educação vai ter de fato – centro de tudo ou só discurso em época de eleição? Quais compromissos mínimos estamos dispostos a assumir, cada um de nós, para que as próximas gerações não tenham que repetir as mesmas histórias de partida forçada e sonho interrompido?
O futuro que queremos para o Mato Grande não depende apenas de promessas, mas de escolhas diárias. Quando a educação se torna compromisso de Estado e de comunidade, e a fé se traduz em cuidado concreto com o outro, nossos jovens descobrem que não precisam ir embora para encontrar esperança: o futuro pode ser construído, com dignidade, aqui mesmo.
Sobre o autor
Gilberto Cipriano do Nascimento é professor, pesquisador e escritor. Licenciado em História, atua na educação básica e desenvolve reflexões sobre educação, EJA, cultura, fé e sociedade, com foco na realidade do Rio Grande do Norte.

Estudante de Serviço Social, Reporter Fotográfico, Radialista e Jornalista com DRT-RN 711. Fui funcionário das Rádio Baixa Verde-AM, 101 FM, 89 FM e Líder Gospel, tendo iniciado no rádio em 1992. Entrei no mundo virtual e idealizei o Blog do Moisés Araújo, hoje uma das referências de informação entre os internautas da Região do Mato Grande e do estado do Rio Grande do Norte.
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