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Ela entrou na sala com o coração pesado. Trazia no colo uma criança pequena e, na voz, um pedido de desculpas que parecia definitivo: ia desistir de concluir o ensino médio. Não era falta de vontade. Era falta de chão: ninguém com quem deixar o filho, cansaço acumulado, contas para pagar, uma rotina que já não cabia mais em seu corpo.
A conversa demorou mais do que o tempo da aula. Entre um desabafo e outro, foi nascendo outra possibilidade. Em vez de perder mais uma aluna da Educação de Jovens e Adultos, a escola decidiu tentar um caminho diferente: se não havia com quem deixar a criança, a própria escola acolheria mãe e filho. Muitas noites, os dois passaram a chegar juntos. A mochila da mãe e a bolsa com fraldas, lado a lado.
Anos depois, aquela aluna concluiu o ensino médio e foi além: cursou Pedagogia e se formou professora. A escola que quase perdeu uma estudante ganhou uma colega de profissão. E, mais do que um diploma, ajudou a reescrever uma história. Histórias como essa ajudam a perceber que, mesmo em meio a tantas dificuldades, a escola ainda pode ser muita coisa no Mato Grande: abrigo, porta de recomeço, ponte entre o sonho e a oportunidade.
Recentemente, perguntei a professores da EJA de diferentes municípios o que tinham vivido de mais marcante em sala de aula. Entre relatos de dor, quase desistência e desafios cotidianos, apareceram também sinais de esperança: experiências em que a escola se reinventou para não perder ninguém pelo caminho. Em comum, sempre a mesma palavra escondida nas entrelinhas: resistência.
Uma professora contou a história de uma mulher que passou mais de trinta anos longe dos estudos. Um dia, parou em frente à escola, ficou alguns minutos em silêncio e entrou. Fez a matrícula na EJA, sentando-se novamente em uma carteira escolar depois de décadas. Ao fim do ano, foi considerada a melhor aluna da turma. O sonho que ela guarda agora não é pequeno: quer ser juíza de Direito.
Talvez o caminho seja longo, talvez cheio de obstáculos, mas a escola voltou a ser para ela aquilo que nunca deveria ter deixado de ser: uma porta aberta.
Outro professor lembrou do dia em que um homem adulto, ainda analfabeto, chegou com um pedido direto: precisava aprender a ler e a escrever para conseguir um emprego em um banco. Não era um desejo abstrato; era uma necessidade concreta de sobrevivência e dignidade. Ao término do ano letivo, ele já lia, escrevia e, sobretudo, havia conquistado o trabalho que tanto buscava. A escola, ali, foi ponte entre o desejo e a oportunidade.
Essas histórias mostram que, quando a escola se dispõe a escutar de verdade as pessoas que a procuram, muita coisa pode nascer. Não se trata de romantizar a falta de estrutura, mas de reconhecer que, mesmo com limitações, há práticas que vêm dando certo e apontam caminhos. Em uma escola do Mato Grande, um projeto social recente ajudou a tornar isso ainda mais visível, ao perguntar: como cuidar também das crianças que são filhos e filhas das alunas da EJA? Daí nasceu uma ação para o Dia das Crianças em que o pátio da escola se encheu de pula-pula, piscina de bolinhas, pipoca, algodão doce e, principalmente, de gente. Mães que estudam à noite levaram seus filhos para brincar, rir, correr.
Professores, funcionários, comunidade e representantes do poder público se somaram para garantir que aquelas crianças tivessem um momento inesquecível. O que estava em jogo ali não era apenas lazer, mas o reconhecimento de que aquelas crianças existem, têm rosto, nome, história, e que suas mães estudantes não estão sozinhas.
Esse tipo de iniciativa revela algo importante: a EJA não é apenas um horário tardio de aula, mas também um espaço de afeto, de cuidado e de pertencimento para famílias inteiras. Quando a escola se abre para acolher os filhos de quem estuda, ela se aproxima mais da vida real do povo que a frequenta. E, no entanto, a boa vontade da escola não basta. É preciso que o poder público assuma essa responsabilidade como política, e não apenas como gesto eventual.
Por isso, ao olhar para essas experiências, fica cada vez mais evidente a urgência de uma agenda que venho defendendo em diferentes espaços: a criação de creches noturnas para atender mães, pais, avós e responsáveis que estudam à noite. No Mato Grande e em tantas regiões do país, muita gente abandona a EJA não por falta de coragem, mas por falta de onde deixar seus filhos em segurança. Deixo aqui um apelo direto a vereadores, prefeitos, secretários e deputados: que essas histórias inspirem projetos de lei e políticas públicas que garantam creches noturnas articuladas às escolas, para que ninguém precise escolher entre estudar e cuidar dos filhos.
No nosso território, a escola ainda pode ser abrigo de recomeços, ponte para novos trabalhos, casa de sonhos atrasados e praça de encontros da comunidade. Enquanto houver uma escola disposta a reinventar seus caminhos para não perder ninguém pelo caminho – e enquanto o poder público escutar essa realidade e criar condições concretas para que esses estudantes permaneçam –, a educação ainda terá futuro no nosso chão.
Sobre o autor
Gilberto Cipriano do Nascimento é professor, pesquisador e escritor. Licenciado em História, atua na educação básica e desenvolve reflexões sobre educação, EJA, cultura, fé e sociedade, com foco na realidade do Rio Grande do Norte.

Estudante de Serviço Social, Reporter Fotográfico, Radialista e Jornalista com DRT-RN 711. Fui funcionário das Rádio Baixa Verde-AM, 101 FM, 89 FM e Líder Gospel, tendo iniciado no rádio em 1992. Entrei no mundo virtual e idealizei o Blog do Moisés Araújo, hoje uma das referências de informação entre os internautas da Região do Mato Grande e do estado do Rio Grande do Norte.
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