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Em muitos lugares, ir à escola é parte natural da infância e da juventude. No Mato Grande, porém, essa realidade nem sempre foi, e ainda não é, garantida para todos. Para muitos estudantes da nossa região, o maior obstáculo à educação não está apenas nos livros ou nas provas, mas no caminho até a própria escola.
A pobreza histórica que marcou grande parte dos municípios do interior potiguar deixou marcas profundas também na educação. Durante décadas, estudar foi um privilégio difícil de alcançar, especialmente para quem precisava trabalhar cedo para ajudar no sustento da família. Entre o alimento na mesa e a sala de aula, muitas vezes não houve escolha.
Na zona rural, esse cenário tornou-se ainda mais desafiador. Casas espalhadas por longas extensões de terra, estradas de barro e trajetos cansativos transformaram o simples ato de frequentar a escola em um verdadeiro exercício de resistência. Para algumas crianças e adolescentes, o dia começava antes do nascer do sol, não por disciplina escolar, mas pela necessidade de vencer a distância.
A distância física da escola nunca foi apenas geográfica; ela sempre carregou um peso social. Quanto mais longe a escola estava, maiores eram as chances de desistência. O cansaço acumulado, as dificuldades do trajeto e a sensação de isolamento foram, silenciosamente, afastando muitos estudantes do ambiente escolar.
Nesse contexto, o transporte escolar deveria funcionar como ponte entre o estudante e o seu direito de aprender. No entanto, quando esse acesso falha, a ponte se rompe. A falta de transporte regular ainda é uma realidade que compromete trajetórias e interrompe sonhos antes mesmo que eles ganhem forma.
Atualmente, muitos alunos da EJA, e até ex-alunos do ensino regular, carregam histórias de evasão que começaram justamente pela dificuldade de acesso à escola. Antigamente, não havia transporte escolar. Muitos andavam léguas a pé. Um senhor da região da Baixa Verde deixou de estudar porque percorria três léguas para ir e três para voltar. No tempo de chuva, simplesmente não havia como sair de casa. Outros iam em pau de arara, por estradas de barro. Anos atrás, quem morava na cidade de Jandaíra precisava vir estudar em João Câmara. Quantas vezes o caminhão atolou? Um trajeto que durava uma hora no verão, no inverno tornava-se uma verdadeira odisseia de cinco horas para chegar à escola, sujos de lama, com os cadernos molhados. Muitos desistiram pelo caminho. Outros resistiram como puderam.
Em relato concedido para esta coluna, o senhor Chagas Honorato, morador da região e testemunha desses anos difíceis, relembra que alunos das comunidades do Valentim (João Câmara), Serrinha (Jardim de Angicos) e Samambaia (Poço Branco), nos anos 1990, vinham estudar em João Câmara em caminhões abertos, alugados pela prefeitura, no período de inverno, quando chovia e o caminhão atolava, voltavam andando para casa. Foram anos e anos assim.
Segundo ele, em 1995, quando o transporte escolar deixou de ser pago, o caminhão parou de circular, e 25 alunos não puderam mais continuar freqüentando a escola. E alguns só conseguiram concluir seus estudos muitos anos depois, graças à Educação de Jovens e Adultos.
A desigualdade entre o urbano e o rural também ajuda a explicar esse quadro. Enquanto alguns alunos cresceram com escolas mais próximas e maior oferta educacional, outros precisaram lidar com estruturas limitadas e oportunidades reduzidas. Não se trata apenas de localização, mas de condições desiguais de partida.
Essa disparidade produziu uma herança difícil de ignorar: a evasão escolar. Muitos adultos de hoje carregam histórias parecidas, começaram a estudar, mas foram obrigados a parar. Não por falta de capacidade ou interesse, mas porque as circunstâncias falaram mais alto.
O abandono precoce da escola raramente foi uma decisão individual. Na maioria das vezes, foi resultado de uma soma de fatores: necessidade financeira, ausência de políticas públicas eficazes, dificuldades de acesso e uma realidade social que empurrava o estudo para depois, ou para nunca.
As consequências desse processo ultrapassam o campo educacional. Quando alguém deixa de estudar, perde-se também parte das oportunidades de crescimento, participação social e autonomia. A exclusão educacional não limita apenas o presente; ela ecoa por gerações.
Compreender essa realidade é essencial para entender por que a Educação de Jovens e Adultos se tornou tão necessária em nossa região. A EJA não surge por acaso, ela é resposta a uma dívida histórica com aqueles que tiveram o direito de aprender interrompido.
Olhar para o Mato Grande é reconhecer que, apesar das distâncias e das desigualdades, ainda existe uma força coletiva que insiste em acreditar na educação. Enfrentar as causas estruturais dessas dificuldades é mais do que um desafio administrativo; é um compromisso com a justiça social. Afinal, quando a escola deixa de ser um lugar distante, ela passa a ser um caminho possível, e nenhum caminho transforma tanto quanto aquele que conduz ao conhecimento.
No Mato Grande, cada aluno que desiste não revela fraqueza, revela uma estrutura que ainda falha. E enquanto isso existir, falar de educação será sempre falar de justiça social.

Estudante de Serviço Social, Reporter Fotográfico, Radialista e Jornalista com DRT-RN 711. Fui funcionário das Rádio Baixa Verde-AM, 101 FM, 89 FM e Líder Gospel, tendo iniciado no rádio em 1992. Entrei no mundo virtual e idealizei o Blog do Moisés Araújo, hoje uma das referências de informação entre os internautas da Região do Mato Grande e do estado do Rio Grande do Norte.

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