Citando os novos dados do Caged, o Cadastro Geral...Leia mais
Citando os novos dados do Caged, o Cadastro Geral...Leia mais
A deputada federal Carla Dickson oficializou, nesta quinta-feira, sua...Leia mais
Matéria atualizada – É com profundo pesar que o...Leia mais
Duas comissões permanentes foram instaladas na manhã desta quarta-feira...Leia mais
Na primeira sessão ordinária do mês de março, realizada...Leia mais
A Prefeitura de Alto do Rodrigues realiza, nos dias...Leia mais
Morreu na noite desta quarta-feira (4), em Belo Horizonte,...Leia mais
O Mandato do Vereador Professor Silvano Carlos protocolou na...Leia mais
A Câmara Municipal de Natal concedeu, nesta quarta-feira (4),...Leia mais
No dia 23 de fevereiro do corrente ano, um novo ciclo se inicia para sonhos que ficaram estagnados por dias, meses, anos e até décadas no Mato Grande. Será mais uma noite em que muitas pessoas irão descansar, enquanto outras luzes permanecerão acesas: serão as salas de aula da Educação de Jovens e Adultos (EJA), onde trabalhadores cansados chegarão com cadernos nas mãos e esperança no peito.
Depois de um dia inteiro de trabalho, de sol a sol, em busca do pão nosso de cada dia, seja no campo, com a enxada e a chibanca na mão, facão na cintura, chapéu na cabeça e água quente na garrafa ao lado, um certo aluno, ao meio-dia em ponto, parou por um instante na plantação de cebolas, olhou para cima, sentindo o sol escaldante na moleira e disse para os colegas que estavam trabalhando em sua volta: “Bem que o professor fala que o peso de uma caneta é mais leve que o peso de uma chibanca”.
O mesmo acontece com muitas alunas que passam o dia inteiro cuidando da mãe, do pai ou da avó doente, acompanhando-os as consultas na capital, saindo de casa às quatro da manhã e retornando apenas no fim da tarde. Outras trabalham em casas de família, cuidam dos filhos sozinhas e ainda encontram forças para estudar à noite. São mães e pais que querem oferecer uma realidade diferente para seus filhos e, enquanto estudam, estão aplainando o próprio futuro.
Para quem mora em distritos ou na zona rural, as dificuldades são ainda maiores. Um dos principais problemas é o transporte escolar, garantido como “programa suplementar” para viabilizar o acesso à escola. Mas será que isso acontece como deveria? Juca e Maria, moradores de municípios diferentes, relataram histórias semelhantes: por residirem afastados da rodagem, já foram deixados pelo transporte escolar causando grande frustração. Em outras situações, quando apenas um aluno precisava ir, o motorista não buscava, alegando que “não compensava”, pasmem!
Talvez muitos não saibam, mas existe o Programa Nacional de Apoio ao Transporte do Escolar (PNATE), instituído pela Lei nº 10.880/2004, que garante recursos para custear o transporte de alunos da zona rural. Ou seja, o transporte escolar não é favor, mas obrigação legal. Muitas vezes, sua ausência é a principal causa da evasão escolar na EJA em comunidades afastadas.
Além disso, há uma pressão financeira constante. Muitos estudantes precisam interromper, mais uma vez, seus sonhos para aceitar trabalhos temporários, longe de casa. Diante disso, fica claro que estudar na EJA não é comodidade: é um ato de coragem.
Nesse contexto, a Educação de Jovens e Adultos vai muito além de uma modalidade de ensino. Ela é, antes de tudo, uma segunda chance. Para muitos homens e mulheres da nossa região, a escola ficou para trás cedo demais, interrompida pelo trabalho precoce, pela pobreza ou pela falta de acesso. Voltar a estudar exige coragem, humildade e esperança. Cada matrícula carrega uma história interrompida que insiste em recomeçar.
Há um valor simbólico profundo nessa volta à sala de aula. Sentar novamente em uma carteira, abrir um caderno, escrever o próprio nome com mais segurança ou compreender um texto que antes parecia impossível não é apenas um ato pedagógico — é um gesto de afirmação humana. A EJA mostra que ninguém está definitivamente atrasado para aprender, nunca é tarde.
Com esse retorno, vem também a recuperação da dignidade. Muitos estudantes relatam que carregaram por anos a vergonha por “não saber ler direito” ou por depender de outros para tarefas simples. Quando começam a aprender, algo muda por dentro. A autoestima cresce, a postura se transforma e o olhar ganha firmeza.
Aos poucos, acontece uma reescrita da própria história. Quem antes se via como alguém que “não nasceu para estudar” passa a se enxergar como alguém em construção. Cada atividade realizada vira uma pequena vitória contra um passado de exclusão escolar. A EJA rompe com a narrativa do fracasso e constrói outra, marcada por superação.
Prova viva disso é a história de um aluno da nossa região, do município de Parazinho que iniciou seus estudos em 1977 e só conseguiu concluí-los em 2025, aos 58 anos de idade. Quase meio século depois, ele voltou à escola, persistiu e venceu. Sua trajetória mostra que o tempo pode passar, mas o direito de aprender não expira.
Tudo isso nos leva a uma verdade que precisa ser reafirmada: a educação é um direito tardio, mas legítimo. Não existe idade certa para aprender, nem prazo de validade para o sonho de estudar. No Mato Grande, cada estudante da EJA é prova viva de que a educação pode até chegar tarde — mas, quando chega, ainda transforma vidas.
Gilberto Cipriano do Nascimento é professor, pesquisador e escritor. Licenciado em História, atua na educação básica e desenvolve reflexões sobre educação, EJA, cultura, fé e sociedade, com foco na realidade do Rio Grande do Norte.

Estudante de Serviço Social, Reporter Fotográfico, Radialista e Jornalista com DRT-RN 711. Fui funcionário das Rádio Baixa Verde-AM, 101 FM, 89 FM e Líder Gospel, tendo iniciado no rádio em 1992. Entrei no mundo virtual e idealizei o Blog do Moisés Araújo, hoje uma das referências de informação entre os internautas da Região do Mato Grande e do estado do Rio Grande do Norte.

Moisés Araújo © 2026 – Todos os Direitos Reservados