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Por Gilberto Cipriano do Nascimento | 19 de junho de 2026

Há momentos na vida de um professor que justificam tudo. Cada planejamento feito tarde da noite, cada aula refeita do zero, cada vez que a gente insistiu quando seria mais fácil desistir. A noite do dia 18 de junho de 2026 foi, para mim, um desses momentos.
No pátio da Escola Estadual Professor Miguel Monteiro, em Parazinho, já com os meus cabelos brancos aparecendo e alguns anos de profissão se condensaram em algumas horas — e eu saí de lá diferente de como entrei.

Como tudo começou
A ideia nasceu de uma inquietação simples, mas que me acompanha há muito tempo: a história mais importante de um lugar raramente está nos livros. Ela está nas pessoas. Nas memórias que os mais velhos carregam, nas histórias que os mais jovens ainda não ouviram — e que correm o risco de desaparecer com o tempo.
Mas entre ter a ideia e colocá-la diante dos alunos, passou-se um tempo. Confesso que fiquei relutando comigo mesmo por uns quinze a vinte dias. Será que lanço esse desafio para eles? Seriam capazes? Aceitariam? E se não funcionasse? São as perguntas que todo professor conhece bem — aquelas que aparecem justamente quando a ideia é grande o suficiente para assustar. No fim, decidi arriscar. E foi a melhor decisão que tomei nesse ano letivo.
Foi com esse pensamento que propus aos alunos do 9º ano um desafio: sair pelas ruas de Parazinho, ouvir os seus moradores e escrever o que encontrassem. Não como exercício escolar. Como pesquisadores. Como escritores. Como filhos dessa cidade que decidiram que a memória dela não morreria no esquecimento.
O que veio depois me surpreendeu — e não era pouco o que eu já esperava deles.
Dezoito jovens que se tornaram autores
Durante meses, esses alunos bateram em portas, ligaram gravadores e sentaram à mesa com pessoas que nunca imaginaram que as suas histórias mereciam um livro. E foi exatamente aí que o projeto revelou o que tinha de mais bonito: na percepção, por parte dos próprios alunos, de que toda vida tem uma história. E toda história merece ser preservada.
O resultado foi o livro Memórias da Comunidade: A História que não está nos livros — publicado pela Editora AYA, com ISBN e DOI registrados, disponível gratuitamente para leitura e download: 🔗 https://ayaeditora.com.br/livro/46714/
Dezoito alunos. Dezoito autores. Com nome em livro publicado e a história de Parazinho guardada para sempre pelas suas palavras.
A noite em que Parazinho parou
Olhei para aquele pátio cheio e precisei de um momento para absorver o que estava vendo.
Estavam lá professores e ex-professores, diretores e ex-diretores que ajudaram a construir essa escola, alunos e ex-alunos que voltaram para celebrar. A diretora da 16ª DIREC se fez presente. A secretaria de educação do município marcou presença. Cinco dos nove vereadores da Câmara Municipal de Parazinho ocuparam cadeiras naquele pátio. O Deputado Estadual Francisco fez questão de se fazer representar. Dois blogs — o Blog do Moisés Araújo da Região do Mato Grande e um Blog local Parazinho É Notícia — estavam lá para registrar cada detalhe.
Mas os verdadeiros protagonistas eram dezoito jovens entre 14 e 15 anos que, um a um, subiram ao palco com o nome de autor. Não de aluno. De autor.
Confesso que segurei a emoção como pude. E não tenho certeza se consegui.
O momento que ninguém esperava
Quando a campanha para a publicação do livro físico foi apresentada, algo aconteceu que transformou a noite em algo ainda maior.
Os vereadores presentes anunciaram que a Câmara Municipal de Parazinho bancaria os 100 exemplares impressos da obra.
O que se seguiu foi aquele silêncio de meio segundo — antes de virar aplausos. Professores emocionados. Pais com os olhos marejados. E dezoito jovens escritores que, pela primeira vez, puderam imaginar o livro que escreveram nas próprias mãos. Em papel. Com cheiro de livro novo.
Aquele foi o momento em que entendi que o projeto havia ido muito além do que eu havia planejado.
O que esse livro representa
Pode parecer que estou exagerando. Mas quem conhece de perto a realidade da educação pública no interior do Rio Grande do Norte sabe que não estou.
É raro. É muito raro que uma escola pública do interior produza uma obra literária com registro editorial, com pesquisa de campo real, com alunos como autores nas palavras da diretora da Escola Miguel Monteiro, Karla Freire e confirmada pela diretora da 16ª DIREC, Romeyka Priscila, nunca houve tamanho feito na Região do Mato Grande, e, não se tem conhecimento no estado do Rio Grande do Norte — e que essa obra mobilize uma cidade inteira em torno da educação e da cultura.
Memórias da Comunidade não é apenas um livro escolar bonito. É um documento vivo. É a prova de que Parazinho tem história, tem memória, tem identidade — e tem jovens dispostos a proteger tudo isso com as próprias palavras.
O encerramento que ficou gravado
Para quem esteve lá, foi impossível não sentir que aquele momento era maior do que um lançamento de livro. Era uma comunidade inteira celebrando a si mesma — e acreditando, mais uma vez, no poder da educação pública.
Saí daquela noite com a certeza de que valeu cada passo do caminho.
O próximo capítulo
Com os 100 exemplares físicos garantidos pelos vereadores, o próximo passo já está traçado: o lançamento do livro impresso acontecerá na Câmara Municipal de Parazinho. Um evento ainda maior, para uma conquista ainda mais concreta.
Parazinho ganhou um livro. E esse livro foi escrito por quem mais ama essa cidade — os seus filhos.
Leia gratuitamente em: 🔗 https://ayaeditora.com.br/livro/46714/
Sobre o autor
Gilberto Cipriano do Nascimento é professor, pesquisador e escritor. Licenciado em História, atua na educação básica e desenvolve reflexões sobre educação, EJA, cultura, fé e sociedade, com foco na realidade do Rio Grande do Norte.
Crédito das fotos: Blog Parazinho é Notícia

Estudante de Serviço Social, Reporter Fotográfico, Radialista e Jornalista com DRT-RN 711. Fui funcionário das Rádio Baixa Verde-AM, 101 FM, 89 FM e Líder Gospel, tendo iniciado no rádio em 1992. Entrei no mundo virtual e idealizei o Blog do Moisés Araújo, hoje uma das referências de informação entre os internautas da Região do Mato Grande e do estado do Rio Grande do Norte.

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