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Ainda é madrugada quando muitos jovens do Mato Grande deixam suas casas. Com uma mochila nas costas e o coração apertado, se despedem da família sem saber ao certo quando voltarão. No silêncio dessas partidas, há mais do que uma viagem: há um sonho interrompido, uma escolha forçada, uma vida que precisa seguir outro caminho.
Essa cena, embora pareça individual, se repete com frequência em nossa região. Mas agora não falamos apenas de impressões gerais: ouvimos diretamente 18 jovens e adultos que vivem ou viveram no Mato Grande. As respostas deles desenham, com números e palavras, aquilo que já se percebia nas conversas de calçada, nas salas de aula e nas rodoviárias cheias.
A maioria dos que responderam ainda mora no Mato Grande. São, em grande parte, jovens entre 19 e 35 anos que trabalham, estudam ou tentam conciliar as duas coisas. Quase 40% já precisaram parar de estudar por causa do trabalho. Por trás desse número há histórias de cansaço, ansiedade, doença, necessidade de sustentar a família, concursos em outras cidades e a simples ausência de emprego no lugar onde nasceram.
“Consegui um emprego e parei de estudar.”
“Foi difícil, trabalhar e estudar, trabalho braçal, pesado, no sol… Mas a vontade foi maior e a escola com certeza proporcionou um futuro melhor.”
“Fui embora porque na cidade não tem oportunidade de trabalho.”
“Fui para pagar meus estudos.”
Esses relatos mostram um traço duro da nossa realidade: o trabalho chega antes da conclusão dos estudos, e muitas vezes fora da cidade. A migração deixa de ser uma escolha livre e passa a ser uma estratégia de sobrevivência.
Ao mesmo tempo, há um dado que não pode ser ignorado: dois terços dos participantes disseram que, se pudessem escolher, prefeririam ficar na própria cidade. O desejo de permanecer é forte. O problema não é o território em si — é a falta de condições para viver nele com dignidade.
Quando perguntados sobre o que os faria permanecer na cidade, as respostas se repetem com clareza: emprego, melhor remuneração, mais oportunidades de trabalho, condição de vida melhor, possibilidade de terminar os estudos, saúde, estabilidade para a família. Uma pessoa foi direta: “Nada! Pois aqui não tem recursos.” Outra resumiu o caminho que enxerga: “Estudar e me formar, conquistar a minha emancipação e mostrar para a sociedade que através da educação você consegue realizar seus sonhos.”
Há também quem já tenha decidido fincar raízes:
“Eu fiquei porque desde cedo planejei organizar minha vida por aqui. A cidade tem um ótimo custo de vida e não planejo sair… A cidade já é agradável da forma que ela é.”
“Nunca pretendi sair, é possível viver sem sair dela. Trabalhar ajuda a viver com dignidade.”
Esses depoimentos revelam algo importante: o Mato Grande não é apenas um lugar de partida; é também um lugar de permanência consciente, de quem vê valor no território, nas relações familiares e na qualidade de vida local, mesmo com limitações.
No meio desse cenário, a escola aparece como um fio de esperança. Metade dos respondentes disse que a escola teve muita influência na decisão de ficar ou sair; outro grupo afirmou que teve “um pouco” de influência. E quase todos — a grande maioria — acreditam que estudar pode mudar o futuro. Em várias falas, os professores são lembrados com gratidão: “Sou apenas grata aos meus professores do ensino fundamental e médio que me incentivaram a ser uma pessoa melhor.”
Isso mostra que a educação não é apenas um detalhe no caminho da juventude: ela é uma das poucas estruturas que, de fato, oferecem perspectiva. Quando a escola acolhe, incentiva, dialoga com a realidade do jovem e o ajuda a enxergar horizontes além da necessidade imediata, ela se torna um fator de permanência no território e de transformação de vida.
No entanto, também é verdade que a escola sozinha não dá conta. Ela inspira e orienta, mas não cria empregos, não garante renda, não resolve a ausência de políticas públicas consistentes. A permanência da juventude no Mato Grande depende de um conjunto de fatores: oportunidades de trabalho, acesso à saúde, políticas para a juventude, transporte, cultura, esportes, condições de concluir os estudos sem precisar escolher entre o caderno e o salário.
A pesquisa que realizamos não pretende esgotar o assunto, mas serve como um espelho inicial. Ao olhar para esses dados e relatos, percebemos que estamos diante de uma encruzilhada: ou continuamos assistindo nossos jovens partirem por falta de alternativa, ou nos unimos — escola, famílias, igrejas, poder público e sociedade — para construir condições reais de permanência com dignidade.
Como cristãos, educadores e cidadãos do Mato Grande, somos chamados a escutar esse clamor silencioso. Não se trata apenas de “segurar” o jovem na sua cidade a qualquer custo, mas de garantir que, se ele quiser ficar, tenha essa possibilidade sem abrir mão dos seus sonhos. E, se precisar sair, que seja por vocação e desejo, não apenas por necessidade e dor.
Porque quando um jovem precisa ir embora apenas para sobreviver, o território perde mais do que um morador — perde parte do seu futuro.
E quando um jovem consegue estudar, trabalhar com dignidade e permanecer onde nasceu, toda a região descobre, nele, que o futuro também pode florescer aqui.
Sobre o autor
Gilberto Cipriano do Nascimento é professor, pesquisador e escritor. Licenciado em História, atua na educação básica e desenvolve reflexões sobre educação, EJA, cultura, fé e sociedade, com foco na realidade do Rio Grande do Norte.

Estudante de Serviço Social, Reporter Fotográfico, Radialista e Jornalista com DRT-RN 711. Fui funcionário das Rádio Baixa Verde-AM, 101 FM, 89 FM e Líder Gospel, tendo iniciado no rádio em 1992. Entrei no mundo virtual e idealizei o Blog do Moisés Araújo, hoje uma das referências de informação entre os internautas da Região do Mato Grande e do estado do Rio Grande do Norte.
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